A entrevista com o Dr. Héctor Martinez sai na Folha Online.
(Link para a entrevista)
Folha Online – Qual era o cenário à época da implantação do método canguru?
Héctor Martínez - Criamos a metodologia em setembro de 1979. Desde o surgimento das incubadoras, em 1880, e especialmente no início dos anos 90, os prematuros e bebês de baixo peso eram separados das mães. Essa situação levou ao adoecimento e à morte de bebês, especialmente por infecções. As autoridades médicas decidiram isolá-los, criando unidades de neonatologia onde toda a equipe médica podia entrar, mas, por um grande paradoxo, a própria mãe não. Pode-se imaginar o quadro que, por cerca de um século, levou essas crianças a serem separadas do ser que mais lhes interessava.
No instituto, fazíamos o mesmo. Frente à grande morbidade, criamos a metodologia para que a mãe pudesse entrar, amamentar, tocar e beijar o filho. Obviamente, a saúde dos bebês melhorou. Então, aqueles que estavam clinicamente melhores, sem importar o peso, foram mandados para casa, para o colo da mãe (e também pai, irmãos e familiares) para que recebessem amor, calor e leite materno. Fizemos o controle ambulatorial, com resultados surpreendentes.
Os anos 80 foram uma luta titânica para convencer as comunidades nacional e internacional dos benefícios do canguru. Com muita fé, insistência, vontade, decisão e convicção ele foi aceito. Hoje, o método se encontra em cinco continentes, em cerca de 80 países, tendo se tornado um novo ramo da medicina quase universalmente.
Folha Online – As dificuldades materiais do IMI influenciaram na implantação do método?
Martínez - Nos países em desenvolvimento, os hospitais daquela época não tinham estrutura suficiente para um compromisso tão grande. Mas nosso interesse inicial se apoiava no fato de que o vínculo entre mãe e filho foi, por toda a história do ser humano, a base do nascimento, desenvolvimento e sobrevivência –a única e inigualável fonte de vida.
Folha Online – Com 30 anos de mãe-canguru, como avalia a evolução do método?
Martínez - Esse tempo foi essencialmente de consolidação de algo que a humanidade sempre viveu. As mudanças foram mínimas, uma vez que os princípios fundamentais (amor, calor e leite materno) não podem ser alterados, caso contrário os esforços falhariam. As mudanças foram na forma, não na essência.
Folha Online - Muitos hospitais brasileiros promovem o método apenas em parte e não preveem a interação 24 horas. Há muitas diferenças entre os resultados do canguru parcial e do integral?
Martínez - Obviamente a criança tem mais e melhores benefícios ficando 24 horas com sua mãe ou família do que se for colocado com ela apenas a conta-gotas.
Folha Online – A prática está sempre ligada à amamentação ou pode ser realizada sem ela?
Martínez - O leite materno é o alimento perfeito, o melhor que existe sobre a face da terra. A ignorância ou o objetivo de lucro de certos profissionais têm introduzido, ou tentado introduzir, alimentos industrializados a partir do leite da vaca e que são promovidos –por sede de lucro, repito– sem considerar que a alimentação à base de leite humano nunca pode ser substituída por leite de vaca modificado.
Folha Online – O que o senhor destaca de suas viagens pelo mundo?
Martínez - Em todos os países (cerca de 75) pelos quais passei, sempre chama a atenção o fato de o vínculo entre mãe e filho ser sempre belo e cheio de vida. Este é o método que a natureza criou para a sobrevivência de suas crias.
Folha Online – Já observou erros na aplicação do método?
Martínez - O principal erro que encontrei é algo comum a muitos profissionais. É que, após mais de um milhão de anos criando seus filhos, as mães tenham agora quem queira lhes dar um manual de criação, dizer o que devem fazer –quando a mãe é, por natureza, a melhor médica, enfermeira, educadora, estimuladora e psicóloga.
Até mais!!!